sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Uma tarde de calor

por Marisa Volonterio

Tinha chovido ao meio dia com essas gotas grandes que anunciam sem pressa que estamos na época das monções.
Logo à tarde, o calor era úmido e pegajoso, e as ruas tinham pouca gente.
Uns poucos tuc-tucs esperando por turistas que desconhecem as maldades do calor cambojano.
Alguns meninos aqui e lá brincando com brinquedos caseiros de madeira ou latão.

Em cada esquina um salão ou um spa, mas nenhum cabelereiro à vista.
Como teria gostado naquela tarde úmida de colocar meus cabelos na água fria!!
E na verdade, após três dias visitando templos: cabelos úmidos e secos e úmidos e secos, molhados e secos, e úmidos de novo..... necessitavam de uma boa espuma para ficar decentes.

O calor aumentava, mais de 39 graus e decidi entrar num spa.
Foot massage, aquela massagem reparadora dos chineses que passam por todos os meridianos e que dói muito, muito ,e que faz lembrar como estamos mal de saúde.
Como diz o provérbio chinês, se dói o pé está mal o corpo. E doía muito essa tarde. Tinham sido demasiados cafés e demasiadas comidas cambojanas apimentadas.
Num país onde o clima aproxima a fome e chama a sede, você tem de comer e beber muito.

A massagem foi dolorida mas perfeita.
As cinzas abaixo dos olhos desapareceram como por encanto mágico, as costas não mais doíam e eu tinha outra presença de ânimo... pena o cabelo.

Perguntei onde lavá-los.
O menino da recepção me explica que aqui os cabeleireiros estão na outra parte da cidade, ou seja, atravessando o rio que corta a cidade em dois.
Um rio com pontes simpáticas e enormes árvores; a casa do Rei de um lado e a principal Pagoda do outro; o café Malroux de um lado e o café Rousseau do outro; o Red Bird bar de um lado e o Blue Bird bar do outro; o magnífico Hotel Residence de Angkor de um lado e o não menos distinto Grand Hotel do outro.
Havia que atravessar ao outro lado para ter um cabeleireiro, pois inexplicavelmente por perto não tinha nenhum, mas, mas...........

O menino me diz que ele é cabeleireiro e se não me importo, ainda que sem toda a parafernália de cadeiras e potes com milhares de produtos, ele poderia lavar meus cabelos, me explica muito pacientemente.

Aceito na hora.
Não preciso de sofás nem cadeiras, nem mil potes de cremes.
Se tem um shampoo, água e uma cadeira de bar de madeira será suficiente, me digo.

Primeira surpresa :
Ele me lava os cabelos na mesma cama que fizeram as massagens.
Debaixo da minha cabeça aparece uma pia de porcelana que não sei de onde saiu. Não importa, a água fria está deliciosa.
Meia hora de massagens e estou pronta para secar o cabelo.
Ele me pede para segui-lo.
Atravessamos todo o spa e chegamos a uma porta.
Abriu a porta e havia uma escada.
Acabou o glamour do spa.

Devo dizer que é um spa lindo, cheio de flores, muitas estátuas de Buddhas, muita decoração, muito silêncio, pouca luz, perfume de lemon grass e água caindo de uma parede de pedras pretas com desenhos semelhantes os baixos relevos de Angkor.

Subi a escada precedida por ele que ia dizendo: “Cuidado, aqui na escada tem uns livros. Cuidado que tem ai um router velho de internet. Cuidado que está um pouco molhado.... e etc etc”, enquanto subíamos os degraus.
Chegamos ao primeiro andar.
Uma peça grande cheia de cestas penduradas no teto com um grande número pintado em tinta vermelha na base de cada cesta.
Dentro se viam roupas que imaginei ser dos meninos e meninas do spa.
Perguntei. “Sim,... são dos mais de 60 empregados do Spa”.
Curioso... pensei.
Uma vez vi um filme chinês e era assim que deixavam as roupas penduradas nas fábricas de cerâmica quando entravam nas salas dos fornos só de calção.
Há mais de dez séculos, o ceramista chinês He Shao-yi tinha descoberto uma argila branca nas colinas de Gaoling : el kaolin, que permitiu criar uma cerâmica particularmente delicada: a porcelana.
Segui pensando que nessas antigas fabricas de porcelana, hoje capital mundial da cerâmica chinesa, já estavam assim penduradas as roupas dos oleiros.......
Estava pensando, e ao fundo desta habitação uma outra porta se abre e há outra escada.
Nessa escada não havia mais que vasos. Era uma escada íngreme e devo dizer que não muito limpa.
Mas tinha muitíssimas orquídeas nos degraus.........era o viveiro de orquídeas para o SPA.
Onde luziam esplendorosas orquídeas por todas partes!!!
As orquídeas como essas damas bonitas prestes a se casar ...........
Mais uma vez, o nascimento das coisas é inexplicável; quando as vemos desconhecemos sua origem.
O origem das coisas será sempre o grande segredo. Neste caso o segredo das orquídeas estava
revelado.
Uma escada suja entre o primeiro e segundo andar era o pai das orquídeas....a mãe deve estar em algum campo perto da cidade.

Terminada a escada há uma outra porta.
A porta se abre, e detrás uma enorme cozinha.
Sessenta empregados que comem duas vezes por dia; é uma grande cozinha.
O chá do spa.
O chá frio e o chá quente....... deliciosos, de jasmin, lótus ou lemon grass.
Calor insuportvel na cozinha.
Cheiro de sopa.
Possivelmente ao meio dia comeram peixe.

Uma janela fechada.
O menino abre a janela que dá para uma estaçao de ônibus.
Ruído. Cheiro de gasolina.
Gritos de empregados que não entendo, mas que não devem ser poemas.
Ruído de chaves de fenda. Cheiro de óleo.

Ele traz uma cadeira da mesa da cozinha.
Ele pega um secador de cabelo de algum lugar
E com a vista dos ônibus Siem Reap - Phnom Penh e o ruído da rua que já começava a acordar,
seca meus cabelos com maestria.
Terminou o seu trabalho rapidamente e com perfeição, devo dizer.
Descemos.
O nascimento das orquídeas e a fábrica de porcelana.
Me mostra no spa meus cabelos num espelho
Falo que está ótimo. Tomo um chá que devo ter visto preparar.
Agradeço muito.
Agradeço falando e agradeço para mim mesma.
De novo me sinto privilegiada.
Mais uma vez na minha vida.

Agradeço por ter me mostrado as entranhas do dragão, mais que pelo fogo do dragão.
Agradeço a simplicidade do gesto.
Agradeço pela pureza do gesto.
Agradeço pois ele entendeu e me explicou que o principal era lavar o cabelo e não o lugar.
Agradeço por muitas coisas ligadas ao grande sentido da simplicidade e penso que
realmente a bondade é filha da simplicidade que por sua vez é filha do senso de retidão.
Quem senão uma pessoa reta pode se interessar pelo cabelo de uma gringa que tem calor ??
Quem senão uma pessoa reta pode fazer contente seu trabalho fora do glamour de sua sala bem decorada ??
Me cobram o foot massage.
Digo que esse é o preço do foot masage, mas há também o cabelo.

Oh não... o cabelo é só porque você estava mesmo precisando, os cabelos estavam muito feios, disse naturalmente e acrescenta: estavam horríveis.

Agora eu sei o preço de um foot masage em Siem Reap mas nunca saberei o valor do gesto de lavar os cabelos.
Isso não tem preço, tem valor.

Preço e valor....
Que coisas tão diferentes.
Quantas vezes confundimos um com o outro !!
Quantas vezes pagamos o preço mas não pagamos o valor da coisa em si.
Quantas vezes não sentimos a necessidade de avaliar o valor porque ficamos satisfeitos em pagar o preço.
Preço e valor, valor e preço.......
Não entendemos nada da vida.

Histórias de uma tarde cambojana e uma gringa com os cabelos muito feios.
Horríveis !!!!
domingo, 8 de agosto de 2010

Exposição de quadros




Noite de sopa e cerâmicas

06 Agosto 2010






quarta-feira, 23 de junho de 2010

Relatório da Anvisa aponta uso indiscriminado de agrotóxicos no Brasil

De 3.130 amostras coletadas, 29% apresentaram alguma irregularidade; pimentão e uva lideram

BRASÍLIA - Agrotóxicos que apresentam alto risco para a saúde da população são utilizados, no Brasil, sem levar em consideração a existência ou não de autorização do governo federal para o uso em alimentos. É o que apontam os novos dados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), divulgados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nesta quarta-feira, 23, em Brasília.

Em 15 das 20 culturas analisadas, foram identificados agrotóxicos ativos e prejudiciais à saúde humana. "Encontramos agrotóxicos, que estamos reavaliando, em culturas para os quais não estão autorizados, o que aumenta o risco tanto para a saúde dos trabalhadores rurais como para a dos consumidores", afirma o diretor da Anvisa, Dirceu Barbano.

Nessa situação, chama a atenção a grande quantidade de amostras de pepino e pimentão contaminadas com endossulfan; de cebola e cenoura com acefato; e de pimentão, tomate, alface e cebola com metamidofós. Além de serem proibidas em vários países do mundo, essas três substâncias já começaram a ser reavaliadas pela Anvisa e tiveram indicação de banimento do Brasil.

De acordo com o diretor da Anvisa, "são ingredientes ativos com elevado e comprovado grau de toxicidade e que causam problemas neurológicos, reprodutivos, de desregulação hormonal e até câncer". "Apesar de serem proibidos em vários locais do mundo, como União Europeia e Estados Unidos, há pressões do setor agrícola para manter esses três produtos no Brasil, mesmo após serem retirados de forma voluntária em outros países", pondera Barbano.

A Anvisa faz a reavaliação toxicológica de ingredientes ativos de agrotóxicos sempre que existe algum alerta nacional ou internacional sobre o perigo dessas substâncias para a saúde. Em 2008, a agência colocou em reavaliação 14 ingredientes ativos, entre eles o endossulfan, o acefato e o metamidofós.

Juntos, esses 14 ingredientes representam 1,4% das 431 moléculas autorizadas para utilização como agrotóxico no Brasil. Entretanto, uma séria de decisões judiciais, também em 2008, impediram, por quase um ano, a Anvisa de realizar a reavaliação dessas substâncias.

De lá pra cá, a Agência conseguiu concluir a reavaliação de apenas uma molécula: a cihexatina. O resultado prevê que ela seja retirada do mercado brasileiro até 2011. "Todos os citricultores que exportam suco de laranja já não utilizam mais a cihexatina, pois nenhum país importador, como Canadá, Estados Unidos, Japão e União Europeia, aceita resíduos dessa substância nos alimentos", diz o gerente de toxicologia da Anvisa, Luiz Cláudio Meirelles.

Para outras cinco substâncias, a Anvisa já publicou consulta públicas e está na fase final da reavaliação. Nesses casos, houve quatro recomendações de banimento (acefato, metamidofós, endossulfan e triclorfom) e uma indicação de permanência do produto com severas restrições ao uso (fosmete).

Balanço

Outra irregularidade apontada pela Para foi a presença, em 2,7% das amostras dos alimentos coletadas, de resíduos de agrotóxicos acima do permitido. "Esses resíduos evidenciam a utilização de agrotóxicos em desacordo com as informações presentes no rótulo e bula do produto, ou seja, indicação do número de aplicações, quantidade de ingrediente ativo por hectare e intervalo de segurança", explica Meirelles.

Houve amostras, ainda, que apresentaram as duas irregularidades: resíduos de agrotóxicos acima do permitido e ingredientes ativos não autorizados para aquela cultura. No balanço geral, das 3.130 amostras coletadas 29% apresentaram algum tipo de irregularidade.

Os casos mais problemáticos foram os do pimentão (80% das amostras insatisfatórias), uva (56,4%), pepino (54,8%), e morango (50,8%). Já a cultura que apresentou melhor resultado foi a da batata, com irregularidades em apenas 1,2% das amostras analisadas.

Cuidados

Para reduzir o consumo de agrotóxico em alimentos, o consumidor deve optar por produtos com origem identificada. Essa identificação aumenta o comprometimento dos produtores em relação à qualidade dos alimentos, com adoção de boas práticas agrícolas.

É importante, ainda, que a população escolha alimentos da época ou produzidos por métodos de produção integrada (que recebem carga menor de agrotóxicos). Alimentos orgânicos também são uma boa opção, pois não utilizam produtos químicos para serem produzidos.

Os procedimentos de lavagem e retirada de cascas e folhas externas de verduras ajudam na redução dos resíduos de agrotóxicos presentes apenas nas superfícies dos alimentos. "Os supermercados também têm um papel fundamental nesse processo, no sentido de rastrear, identificar e só comprar produtos de fornecedores que efetivamente adotem boas práticas agrícolas na produção de alimentos", afirma o gerente da Anvisa.

Para

O objetivo do Para, criado em 2001, é garantir a segurança alimentar do trabalhador brasileiro e a saúde do trabalhador rural. Em 2009, o programa da Anvisa monitorou 20 culturas em 26 Estados do Brasil. Apenas Alagoas não participou do Para em 2009.

O Programa funciona a partir de amostras coletadas pelas vigilâncias sanitárias dos Estados e municípios em supermercados. No último ano, as amostras foram enviadas para análise aos seguintes laboratórios: Instituto Octávio Magalhães (IOM/Funed/MG), Laboratório Central do Paraná (Lacen/PR) e para um laboratório contratado, nos quais foram investigadas até 234 diferentes agrotóxicos em cada uma das amostras.

Apesar das coletas realizadas não serem de caráter fiscal, o Para tem contribuído para que os supermercados qualifiquem seus fornecedores e para que os produtores rurais adotem integralmente as Boas Práticas Agrícolas. Prova disso foi a criação do Grupo de Trabalho de Educação e Saúde sobre Agrotóxicos (Gesa).

Integrado por diferentes órgãos e entidades, o grupo tem como objetivo elaborar propostas e ações educativas para reduzir os impactos do uso de agrotóxicos na saúde da população, implementar ações e estratégias para incentivar os sistemas de produção integrada e orgânicos e, no caso dos cultivos convencionais, orientar o uso racional de agrotóxicos. "Além de orientar, é preciso que o Estado fiscalize de forma efetiva o uso desses produtos no campo e coíba o uso indiscriminado e, até mesmo ilegal, de alguns agrotóxicos", comenta Meirelles.

Os Estados também têm realizado diversas ações para ampliar o número de amostras rastreadas até o produtor. Das amostras coletadas em 2009, 842 (26,9%) foram rastreadas até o produtor/associação de produtores, 163 (5,2%) até o embalador, e 2032 (64,9%) até o distribuidor. Somente 93 (3%) amostras não tiveram qualquer rastreabilidade.

Confira a íntegra do relatório da Anvisa.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sustentabilidade

As pessoas estão falando muito em "Sustentabilidade" que parece ser a palavra da moda.
Alguns não pegam sacolas plásticas no supermercado, outros compram orgânicos, outros tomam banhos mais rápidos.
Mas tudo isso não é uma idéia e muito menos um ideal. São apenas ações básicas, mínimas e óbvias que todos deveríamos ter tomado individualmente e por livre arbítrio.

"Pegada ambiental", "compensação de carbono", "desenvolvimento sustentável", são todos termos criados ou popularizados pelo mesmo estado de coisas que nos trouxe até a situação atual. Estado de coisas que prega o consumismo exagerado, a ganância e o individualismo.

Ao invés de comprarmos um enorme SUV a diesel, agora tentam nos convencer de comprar o último modelo do moderno carro flex.
Ao invés de termos conta no banco que cobra as menores taxas de juros, agora tentam nos convencer de ter conta no banco mais sustentável. Como pode um banco ser sustentável se não produz e não cria nada?

Para ser sustentável basta vender o carro, comprar ou alugar um terreninho no campo, passar a plantar e colher, consumindo o mínimo possível e reciclando o que for possível. Obviamente que quem tem uma profissão ou ofício pode e deve continuar com seu trabalho paralelamente, muitas vezes sem nenhum prejuízo graças aos avanços na comunicação.

Claro que entre uma coisa e outra existem muitas possibilidades, mas é preciso repensar a idéia de que apenas aquelas pequenas opções politicamente corretas em nosso dia a dia serão capazes de modificar minimamente qualquer coisa.
sexta-feira, 21 de maio de 2010

Revista Vegetarianos no. 43

Fotos de Tomaz G. Vello

Palestra Dra. Marisa

 Hotel Renassaince
Buffet do Melinda & Julius
Dra Marisa Volonterio e Emerson Fittipaldi

Oriente

Nosso dia a dia